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Desvendando a Avaliação de Dupla Materialidade (DMA) e a Nova Lógica dos KPIs Corporativos

Atualizado: 23 de fev.


Nos últimos dois anos, a conversa sobre sustentabilidade corporativa deixou de girar em torno de “qual relatório publicar” para se concentrar em uma pergunta mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexa de responder: quais indicadores realmente alinham risco e o resultado do negócio?


É justamente aqui que a dupla materialidade deixa de ser apenas um "jargão regulatório europeu" e se torna uma forma prática para alinhar Sustentabilidade, Finanças, Governança e Supply Chain em torno dos mesmos KPIs.


Em um contexto em que normas como CSRD, ESRS e ISSB redefinem o que é considerado informação “essencial” para investidores, reguladores e conselhos, não basta mais ter apena sum bom relatório ESG no final de cada período. As métricas climáticas, de recursos e de capital humano passaram a disputar espaço no mesmo painel de performance que margens, retorno sobre capital investido e eficiência operacional. Agora, muda-se profundamente a forma como as áreas se relacionam entre si e como os líderes de precisam ler os números.


É nesse cenário que a dupla materialidade se consolida como a “coluna vertebral” dos novos frameworks de reporte. Sob a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) e os ESRS (European Sustainability Reporting Standards), as empresas precisam demonstrar, ao mesmo tempo, como seus impactos afetam pessoas e meio ambiente (materialidade de impacto) e como questões ambientais e sociais retroalimentam o risco financeiro e a resiliência do negócio (materialidade financeira). Ao fazer isso, elas são obrigadas a sair da lógica de iniciativas ESG isoladas e a integrar sustentabilidade à própria arquitetura de gestão de performance.


O novo contexto regulatório: menos escopo, mais

profundidade


A aprovação do pacote Omnibus na União Europeia, por exemplo, reduziu o escopo formal da CSRD, ao elevar o corte de elegibilidade e remover cerca de 80% das empresas que originalmente estariam sujeitas à diretiva, concentrando as obrigações nas organizações de maior porte e potencial de impacto. Porém, isso não significa alivio na prática, pois a combinação de requisitos de dupla materialidade, planos de transição e asseguração de dados tornou os programas de adequação intensivos em tempo e recursos, com estudos apontando uma média de 15 meses para implementar um programa padrão de CSRD de forma eficaz.​


Ao mesmo tempo, mais de 35 jurisdições já anunciaram a adoção ou o processo de adoção de normas baseadas no ISSB, aproximando ainda mais relatórios financeiros e climáticos. No Brasil, a Resolução CVM 193 posicionou o país como o primeiro a incorporar formalmente os padrões do ISSB em relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, elevando as expectativas sobre a qualidade, comparabilidade e utilidade dos dados para decisões de capital. Em resumo, está cada vez mais claro que o a régua está subindo, mesmo onde a legislação ainda parece “mais branda”.


Dupla materialidade como lógica de gestão, não só de reporte


No ESRS a dupla materialidade exige que a empresa demonstre tanto seus impactos sobre pessoas e meio ambiente quanto os riscos e oportunidades financeiros associados a temas ambientais, sociais e de governança. Essa abordagem força uma revisão do processo de análise de risco e de alocação de capital, porque o que é “material” deixa de ser apenas aquilo que afeta o resultado trimestral e passa a incluir fatores físicos, regulatórios, reputacionais e de cadeia de suprimentos em horizontes mais longos.


A experiência da primeira onda de relatórios sob CSRD trouxe alguns aprendizados importantes: o exercício de dupla materialidade foi determinante para reduzir listas extensas de indicadores e chegar a um conjunto de KPIs realmente relevantes, e o envolvimento estruturado de stakeholders ajudou a qualificar decisões sobre quais temas priorizar. Em muitos casos, isso significou migrar de matrizes genéricas para fluxos de trabalho mais dinâmicos, conectados ao planejamento estratégico e à inovação, com impacto direto em como as áreas operacionais são cobradas e como os incentivos executivos são desenhados.


KPIs espelhados: quando todas as áreas olham para o mesmo painel


Quando olhamos a partir da perspectiva de quem opera a empresa no dia a dia, a pergunta-chave é: como traduzir a dupla materialidade em indicadores que façam sentido para Sustentabilidade, Finanças, Governança e Supply Chain ao mesmo tempo?

A resposta não está em criar dezenas de novos KPIs, mas em reinterpretar os indicadores que já existem, atribuindo a eles uma dimensão de impacto e uma dimensão financeira. No final do dia, estamos falando sobre reduzir a assimetria de informações.


Alguns eixos típicos de convergência:


  • Emissões e Energia


    • Sustentabilidade trabalha com emissões de Escopos 1, 2 e 3, intensidade carbônica, consumo de energia e aderência a metas científicas.

    • Finanças quantificam o custo atual e potencial do carbono, a exposição a mecanismos como IFRS e CBAM e os efeitos em margem, EBITDA e custo de capital.​​

    • Supply Chain acompanha a pegada dos fornecedores críticos, o nível de dados auditáveis disponíveis e as oportunidades de eficiência logística e energética.


  • Cadeia de Valor e Resiliência Climática


    • Sustentabilidade analisa impactos sociais, condições de trabalho, direitos humanos e relação com comunidades ao longo da cadeia.

    • Governança incorpora esses fatores em frameworks de risco, due diligence e conformidade regulatória, incluindo diretrizes de diligência obrigatória.​

    • Supply Chain mede criticidade de fornecedores, diversificação, exposição a interrupções climáticas e regulatórias e desempenho ESG em contratos.


  • Capital e Investimentos


    • Finanças monitoram o percentual de capex e opex alinhado a taxonomias verdes e planos de transição, além do impacto em métricas como retorno sobre capital investido.​

    • Sustentabilidade e Operações utilizam esses dados para priorizar projetos que maximizem redução de emissões, eficiência de recursos e inovação em produtos e processos.


O resultado é um conjunto de KPIs que pode ser lido por diferentes áreas com objetivos distintos, sem perder coerência.


Tabela 01 – Um mesmo KPI, múltiplas leituras.

KPI

Perspectiva de Impacto (Sustentabilidade)

Perspectiva Financeira (Finanças/Governança)

Perspectiva Operacional (Supply/Operações)

tCO₂e (Escopos 1, 2, 3) por unidade de receita

Mede contribuição para metas climáticas e planos de transição.

Quantifica risco regulatório, custo de carbono e efeitos em margem.​

Direciona projetos de eficiência e redesign da cadeia de suprimentos.​

% do EBITDA exposto a regulações climáticas

Conecta temas ambientais às prioridades estratégicas.​

Orienta alocação de capital e stress tests financeiros.​​

Apoia decisões de footprint industrial e contratos de longo prazo.​

% de fornecedores com dados disponíveis e auditáveis

Permite medir impacto e progresso na cadeia de valor.

Reduz risco de greenwashing e falhas em due diligence.​

Aumenta previsibilidade, qualidade e resiliência da cadeia.​


Controles internos e a crise de acurácia


À medida que os reportes de sustentabilidade se aproximam da asseguração obrigatória, a fragilidade deixa de ser apenas “o que medir” e passa a ser “quão confiável é o que estamos medindo”.


Atualmente, muitas empresas ainda operam com dados distribuídos em planilhas, e-mails e sistemas não integrados, o que amplia o risco de inconsistências, erros e retrabalho, cenário que alguns autores já classificam como uma crise clara de confiabilidade e acurácia.


Para enfrentar esse desafio, conselhos e equipes executivas vêm adotando frameworks como o Internal Control over Sustainability Reporting (ICSR), que transpõem para os dados de sustentabilidade a disciplina aplicada há décadas aos relatórios financeiros. Na prática, isso inclui:


  • Definir pontos claros de dono de dados, processos padronizados de coleta e validação e trilhas de auditoria em toda a cadeia de informação, do ativo físico ao relatório consolidado.​

  • Conduzir exercícios de “dry‑run assurance” antes dos prazos legais, permitindo identificar lacunas em sistemas, competências e controles sem exposição pública imediata.


Quando esses controles são desenhados já com base na lógica de dupla materialidade, as empresas ganham (além da conformidade) dados robustos o suficiente para embasar decisões sobre pricing, contratos, investimentos e modelos de negócio.


O papel do conselho: remuneração, comitês e cadeia de suprimentos


No nível de governança, a dupla materialidade chega à sala de conselho por três caminhos principais: remuneração, comitês e cadeia de suprimentos. Em termos de incentivos, cresce a expectativa de que metas ESG materialmente relevantes sejam incorporadas à remuneração variável da alta liderança, em patamar comparável a indicadores financeiros, para evitar que o tema fique restrito apenas a compromissos declaratórios.


Além disso, comitês de auditoria e de sustentabilidade têm ampliado seus mandatos para abarcar processos e métricas de reporte não financeiro, incluindo a supervisão da integração entre relatórios de sustentabilidade e demonstrações financeiras, bem como a agenda de asseguração externa. Na Europa mesmo após o enxugamento de escopo da CSRD pelo Omnibus, grandes companhias continuam exigindo dados ESG auditáveis de fornecedores, o que traz a cadeia de suprimentos para o centro da discussão, independentemente de obrigações formais de reporte.​


Palavras finais


Empresas que adotarem a dupla materialidade como arquitetura de decisão estratégica, e não apenas como um checklist regulatório, tendem a desenvolver uma visão integrada de riscos e oportunidades, conectando finanças, clima, pessoas e governança em um mesmo fluxo decisório. Ao incorporar esse olhar de forma transversal (do conselho às operações) essas organizações criam mecanismos mais sofisticados de priorização, alocação de capital e gestão de trade-offs, antecipando pressões de reguladores, clientes e sociedade.


Com isso, estarão em melhor posição para navegar um ambiente regulatório dinâmico, acessar capital em condições mais vantajosas e estruturar cadeias de valor mais resilientes, com métricas e evidências que dialogam diretamente com investidores, reguladores e grandes compradores. Ao mesmo tempo, reduzem de forma consistente sua exposição a riscos climáticos, sociais, regulatórios e reputacionais, hoje cada vez mais interconectados e financeiros, transformando a dupla materialidade em vantagem competitiva e não apenas em obrigação de reporte.

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